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Aluna:Maria Aparecida Xavier Vieira

Introdução

Margaret Naumburg foi a pioneira no trabalho com arteterapia em um viés psicanalítico, desenvolvendo a arteterapia de orientação dinâmica. Sua aproximação inicial com a arte, entretanto, deu-se na área da educação, juntamente à irmã Florence Cane, que era artista e professora de arte (por muitos anos trabalharam juntas na Walden School, fundada por Naumburg) e, enquanto Florence desenvolveu métodos de ensino para liberar a expressão artística, tornando-se pioneira na arte-educação, Margaret se baseou em suas conquistas para fazer da arte um instrumento terapêutico (Andrade, 2000).

Na visão de Naumburg, a expressão artística é como um espelho, que reflete diversas informações, estabelecendo uma ponte no diálogo entre consciente e inconsciente (Andrade, 1995). Baseada na concepção freudiana do determinismo do inconsciente, cujos pensamentos e sentimentos se expressariam mais em imagens do que palavras, como comprovado por Freud na teoria dos sonhos, Naumburg considera que a atividade pictórica favorece a projeção de conteúdos inconscientes, favorecendo, por uma via simbólica, a comunicação entre paciente e terapeuta.

As imagens produzidas no fazer artístico são assim abordadas como em um procedimento psicanalítico, podendo ser ligadas a conteúdos de sonhos, fantasias, medos, memórias infantis e conflitos atuais vividos pelo sujeito. Uma vez que geralmente as pessoas, ao iniciarem um processo psicoterapêutico, se encontram com o próprio discurso muito bloqueado devido às resistências, a arte vem a ser um canal que facilita a comunicação, pois, conforme Andrade, “através do uso da expressão gráfica ou plástica começam a desenvolver a verbalização ao explicar e falar a respeito de suas produções artísticas” (2000, p.73).

Naumburg trouxe como princípio básico da arteterapia psicanalítica o reconhecimento de que todo indivíduo, independentemente de possuir ou não um treinamento artístico, tem a capacidade de projetar seus conflitos interiores em formas visuais. Nessa abordagem, a interpretação da expressão artística acontece sempre na relação transferencial, na qual o sujeito é incentivado pelo terapeuta a descobrir por si mesmo o significado de suas produções, estimulando-se o uso da livre associação, a fim de que ele expresse em palavras os sentimentos e os pensamentos projetados nas imagens pictóricas. Segundo Naumburg, a arteterapia pode auxiliar na redução do tratamento e na diminuição da transferência negativa, pois “as imagens objetivadas atuam então como uma comunicação simbólica imediata que sobrepuja as dificuldades inerentes na linguagem verbal” (1991, p.389).

Na arteterapia psicanalítica, outro ponto fundamental é a concepção da arte como uma forma de sublimação, tal como postulado por Freud. A sublimação designa o processo no qual as pulsões são desviadas de seu objetivo original, de ordem sexual, e utilizadas em atividades culturais, tais como a criação artística ou a investigação intelectual, visando objetos socialmente valorizados (Laplanche & Pontalis, 1998). A ideia de sublimação, aceita por Naumburg, é mais representativa no trabalho de arteterapia de Edith Krammer, artista, professora de arte e psicanalista nascida em Viena, Áustria, em 1916, e que emigrou para Nova York em 1938. A visão de Krammer diferencia-se da de Naumburg, porque ela não praticava a interpretação, “dando prioridade ao processo de fazer arte sem a necessidade de verbalização” (Andrade, 1995, p.45).

A ênfase de Krammer estava no valor terapêutico do processo criativo e do fazer artístico em si mesmo, que propõe a arte como terapia, em vez de uma psicoterapia que utiliza a arte como ferramenta (Ciornai, 2004). O fundamento de seu trabalho está no reconhecimento do papel da arte como sublimação, entendendo-se por sublimação a transformação dos impulsos antissociais, agressivos e sexuais em um ato socialmente produtivo, “de modo que o prazer produzido pelo resultado desse ato social substitui, pelo menos em parte, o prazer que a gratificação original teria proporcionado” (Andrade, 1995, p.45).

Na visão de Krammer, a criação artística é em si mesma terapêutica, porque contribui para o equilíbrio psíquico e o fortalecimento do ego, mediante a resolução do conflito entre forças contrárias (id x superego), que encontram, via sublimação, uma possibilidade de síntese na atividade criadora. Ela definia o artista como alguém que “aprendeu a resolver, mediante a criação artística, os conflitos estabelecidos pela oposição entre as demandas dos impulsos e as demandas do superego” (Krammer, 1982, p.27). Nessa perspectiva, compreende-se que, na arte, se torna possível a expressão de desejos, impulsos, sentimentos e pensamentos que, muitas vezes, são inaceitáveis socialmente, sendo mais saudável encontrarem uma via de escape na arte do que serem recalcados, retornando na forma de sintomas. Assim, para Krammer, o papel do arteterapeuta, que deveria possuir também aptidões de artista e professor, era tornar disponível às pessoas esse valioso recurso: “O poder da arte de contribuir para o desenvolvimento de uma organização psíquica capaz de funcionar sob pressão sem fragmentar-se ou recorrer a medidas defensivas nefastas” (Krammer, 1971 como citado em Ciornai, 2004, p.28.

Referência

Andrade, L. Q. (1995). Linhas teóricas em arte-terapia. In M. M. M. J. de Carvalho (Org.), A Arte Cura? Recursos artísticos em psicoterapia (pp. 39-54). Campinas, SP: Editorial Psy II.

Andrade, L. Q. (2000). Terapias expressivas. São Paulo: Vetor.

Ciornai, S. (1995). Arte-terapia: o resgate da criatividade na vida. In M. M. M. J Carvalho (Org.), A arte cura? Recursos artísticos em psicoterapia (pp. 59-63). Campinas, SP: Editorial Psy II.

Ciornai, S. (Org.) (2004). Percursos em arteterapia: arteterapia gestáltica, arte em psicoterapia, supervisão em arteterapia. São Paulo:

Krammer, E. (1982). Terapia através del arte en una comunidad infantil. Buenos Aires: Kapelusz.

Laplanche, J., & Pontalis, J. B. (1998). Vocabulário da psicanálise(3a ed., P. Tamen, trad.). São Paulo: Martins Fontes.

Naumburg,M.(1966). Dinamically oriented art therapy: Its principles and practice. Nova Iorque: Grune-Stratton.

Naumburg, M. (1991). A arteterapia: seu escopo e sua função. In E. F. Hammer(Org.), Aplicações clínicas dos desenhos projetivos (pp. 388-392). São Paulo: Casa do Psicólogo.

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