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Jorge Jaber fala em matéria no O Globo sobre tratamento a quem vive em cracolândias.

CONFIRA:

fonte: O Globo

Quase nada mudou na vida de Maria Zenita Ferreira da Silva, de 30 anos, desde que ela apertou a mão do prefeito Marcelo Crivella, há pouco mais de um ano, num trecho das obras do BRT Transbrasil, na altura de Ramos, transformado em cracolândia. Usuária de droga, ela pediu ao prefeito para sair dali e mudar de vida. Chegou a ser levada para um abrigo na Taquara, em Jacarepaguá, mas depois de um mês já estava de volta à Avenida Brasil. Hoje, sem receber qualquer tratamento, Maria Zenita vive sob o mesmo viaduto, onde dezenas de pessoas consomem crack dia e noite.

Na visita à cracolândia, em outubro do ano passado, Crivella aproveitou para dar posse ao então secretário municipal de Assistência Social e Direitos Humanos, Pedro Fernandes, que já não está mais no cargo e foi candidato a governador. Os dois anunciaram que seria construído um espaço de acolhimento na região, em parceria com a Fundação Leão XIII, e abertos 200 leitos para o tratamento de usuários de drogas. Pelo menos a parceria com a fundação não saiu do papel.

A prefeitura informou, no entanto, que implantou dois projetos: em dezembro, inaugurou o Hotel Popular de Bonsucesso Profeta Gentileza e, em fevereiro, abriu o Centro POP José Saramago, ambos para população de rua. Mas as medidas não foram suficientes para conter o crescimento das cracolândias que se espalham pelas ruas a olhos vistos. Em frente à Uerj, no Maracanã, um grupo que chega a ter 40 pessoas faz uso de crack à luz do dia. A poucos metros dali, outra cracolândia cresce sob o Viaduto da Mangueira. A situação é ainda mais grave, segundo moradores, em Del Castilho, onde usuários ocupam calçadas e a área ao redor do viaduto do bairro.

Maria Zenita, ou Mary Jane, como gosta de ser chamada, vive numa das maiores cracolândias da cidade. Ontem, havia cerca de cem usuários naquele trecho do BRT Transbrasil, que continua sem operários, apesar de a obra do corredor exclusivo ter sido retomada. Ali, às margens da Avenida Brasil, foram construídos até “barracos suspensos” junto à parte de baixo do viaduto que fará a ligação com o BRT Transcarioca. Há pelo menos cinco escadas de madeiras colocadas para facilitar a subida dos moradores. Já Maria Zenita fica sob o viaduto ao lado, que dá acesso à Ilha do Governador. Ela divide com o companheiro um quartinho, onde mal cabe uma cama. O lugar é um antigo canteiro de obras, deixado para trás após a conclusão do Transcarioca, que liga o Galeão à Barra. São pelo menos dez cômodos, onde vivem mais de 30 pessoas.Sem número oficialA Secretaria municipal de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos não tem o mapeamento atualizado das cracolândias. Mas, em abril, a prefeitura havia identificado 150 locais que reuniam cerca de dois mil usuários. Na época, os pontos mais críticos eram a Rua Leopoldino de Oliveira, em Madureira, e a Rua Luíza Vale, em Del Castilho.

A secretaria informou que tem uma rede própria e uma conveniada de acolhimento para a população de rua. Porém, não há unidades exclusivas para aqueles que fazem uso de drogas. O Hotel de Bonsucesso, por exemplo, é usado por usuários da cracolândia da Avenida Brasil, segundo a prefeitura, mas o espaço não dispõe de tratamento médico. Lá, além do acolhimento, eles recebem atendimento psicossocial, alimentação e higiene. Segundo a secretaria, o abrigo tem parceria com unidades de saúde.

Para Jorge Jaber, psiquiatra e especialista em dependência química, é um erro juntar no mesmo espaço usuários de drogas e moradores de rua. Segundo ele, são públicos distintos e com necessidades diferentes de atendimento.

— Não é o ideal. Os problemas psicológicos de alguém que é usuário de crack incluem, principalmente, a compulsão e o desejo incontrolável de usar a substância, que é diferente do de alguém que está com depressão e abandonado na rua porque não tem ânimo de fazer nada. Aquele que está na rua deprimido precisa de estímulo. Já o dependente químico precisa ter sua agitação reduzida. São duas tarefas opostas — explica o psiquiatra.

Para o especialista, além de abrigo, é preciso oferecer tratamentos médico e psicossocial ao usuário. Na avaliação de Jaber, eles devem ter acesso a atividades para que se mantenham ocupados. Embora a prefeitura garanta que oferece oficinas, não é o que diz quem já passou por uma dessas unidades municipais.

— Nos centros de recuperação, não tem nada para a gente fazer. Não tem atividade, curso nem nada. A gente acorda descansado, sem ter o que fazer, e vai pensar no crack — contou Tatiele Cabral, de 26 anos, que passou uma temporada numa unidade na Estrada do Magarça, em Campo Grande.

Maria Zenita também disse que não se adaptou ao abrigo, para onde foi levada após seu encontro com Crivella. Ela aproveitou a curta estada no lugar para tirar novos documentos. Hoje ainda alimenta o sonho de um dia mudar de vida e reencontrar a filha de 5 anos, criada pela avó, em Caxias, na Baixada Fluminense.

— Não me adaptei. É muito longe, e meu marido não foi comigo. Voltei também por causa dele — contou ela, que, após retornar para as ruas, se separou e encontrou um novo companheiro.

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