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Cristina Bessa de Mendonça

 

Resumo

 

 

 

A demanda clínica atual inclui um numero significativo de pacientes borderlines. Esse estudo buscou realizar uma revisão da literatura abrangente e não sistemática sobre os vínculos afetivos de adolescentes com indicadores de personalidade borderline. Os estudos encontrados foram discutidos em três grupos: adolescência e cultura contemporânea, características da organização borderline na adolescência e vínculos afetivos desses adolescentes. Discute-se a importância dos vínculos de apego inseguro, a questão da psicopatologia materna e o papel das experiências traumáticas na história de vida desses pacientes.

 

 

 

Palavras-chave:

 

Adolescentes, comportamento de apego, distúrbio da personalidade borderline.

 

 

 

Introdução

 

Este artigo apresenta uma revisão de literatura abrangente e não sistemática sobre o tema dos sistemas afetivos entre adolescentes com indicadores de organização de personalidade borderline e seus pais (ou principais cuidadores).

 

Na organização borderline descreve uma falta constitucional de autonomia primária, baixa tolerância à ansiedade, importante desenvolvimento dos impulsos agressivos e vivências de uma realidade excessivamente frustrante.

 

O interesse pela adolescência justifica-se pelo fato de que, de acordo com a vertente psicanalítica, o adolescente vivencia situações complexas: desidentificações, neoindentificações, difusões identitárias, oscilações entre a busca da dependência e a necessidade de estabelecer sua individuação, confrontação de gerações, dentre outras.

 

A compreensão dos processos característicos desse período pode subsidiar tanto as intervenções no campo da cínica psicológica, como ações de prevenção e promoção da saúde mental dessa população.

 

 

 

Desenvolvimento

 

 

 

Adolescência e cultura contemporânea

 

O tempo contemporâneo é marcado pelo instantâneo, pela superficialidade e pelo imediatismo que (des) estrutura as relações.

 

Com efeito, o “fenômeno borderline” articula-se ao contexto da atualidade, tendo em vista este mal-estar contemporâneo, marcado por uma cultura cada vez mais competitiva, individualista e narcísica. Como consequência, aparece o “desenraizamento” do ser humano e o aumento se seu desamparo. O adolescente borderline, assim, busca um lugar de acolhimento cada vez mais difícil de encontrar. Todos estes fatores, somados a proliferação da violência nos mais diversos âmbitos (urbano, familiar, institucional), à crise de valores éticos e às novas configurações familiares não podem ser desprezados quanto às suas implicações em termos de sofrimento psíquico e repercussões nos vínculos afetivos durante a adolescência.

 

A “desordem” foi salientada em algumas dinâmicas familiares no cenário atual, em que a hierarquia não parece ter mais sentido, já que o poder se encontra descentralizado, caracterizando uma família ”fraterna”, igualitária. Como consequência, aparece o enfraquecimento das referências parentais e a diluição dos limites e das regras, o que, muitas vezes, se traduz em desamparo, sobre-excitação e tendência a descargas afetivas na adolescência.

 

 

 

Adolescência e organização da personalidade borderline

 

Os sintomas mais frequentes encontrados nestes adolescentes foram ideação paranoide ou sintomas dissociativos, instabilidade afetiva, sentimento intenso de raiva, comportamentos autodestrutivos ou suicidas, esforços imensos para evitar o abandono, impulsividade, relacionamentos instáveis e intensos, distúrbio da identidade e o sentimento de vazio.

 

Destacam-se, ainda as dificuldades de relacionamentos interpessoais (acentuadamente conturbados e instáveis), das angústias de cunho depressivo (depressão narcísica) e um funcionamento marcadamente impulsivo e atuador. A intolerância à frustação, a precariedade na capacidade sublimatória, a falta de constância objetal e as falhas narcísicas estão presentes nesta dinâmica, acarretando graves perturbações na construção identiária e nas relações de objeto (detonando uma indiscriminação self–objeto). A tênue integração do

 

superego também é um fator relevante, resultando em tendências anti-sociais e predomínio do processo primário.

 

 

 

Os vínculos afetivos dos adolescentes com organização de personalidade borderline

 

A história familiar e os vínculos afetivos ocupam um lugar de destaque na psicodinâmica dos adolescentes borderline. A literatura tem enfatizado os antecedentes desenvolvimentais dessa organização de personalidade, discutindo o papel das experiências traumáticas, como abuso sexual e físico, história de prolongadas separações precoces e perdas parentais (como divórcio, doenças, viagens), exposição a atitudes parentais dominadoras, frias afetivamente e sádicas, marcadas por negligência emocional, superproteção e controle excessivo. Nessa senda, aparece um contexto familiar instável e caótico, marcado por ansiedade de separação, negação da autonomia dos filhos e um modelo de comunicação baseado em atuações (em detrimento das palavras). Geralmente, trata-se de interações afetivas patológicas (didáticas, narcísicas, superprotetoras e/ou negligentes), relacionadas a padrões de apego inseguro.

 

Na linha de estudos qualitativos, a partir da utilização do TAT (Teste de Apercepção Temática) e o Rorschach, algum autores tem tratado das dimensões da identidade e das relações objetais dos pacientes borderline, sugerindo um funcionamento permeado por fragmentações, desvalorizações, manipulações, necessidade de gratificação dos objetos, impulsividade e dificuldades egóicas. Além disso, tendência a pensar de forma egocêntrica, apresentando dificuldades em diferenciar a sua perspectiva da dos outros.

 

Além disso, estão presentes dificuldade de reconhecer, diferenciar e integrar emoções, assim como representações fragmentadas e malevolentes de si e dos outros, além de características comportamentais – suicídio e auto-agressão, uso de substâncias, bulimia. Tais situações trazem, como consequências, confusões de pensamentos e de sentimentos, dificuldades com os limites, fronteiras frágeis, fluidas e dificuldades em manter relações íntimas e duradouras com as pessoas.

 

 

 

 

 

 

Conclusão

 

Algumas reflexões se destacam a partir da literatura revisada. Em primeiro lugar, as características da cultura e da sociedade contemporânea parecem constituir, muitas vezes, um terreno fértil para a potencialização de alguns aspectos que, como vimos, estão presentes na dinâmica da organização borderline. A ênfase no individualismo, no narcisismo, a indiferenciação entre as gerações e a fragilização dos vínculos afetivos são condições que podem facilitar a emergência de manifestações de sofrimento psíquico, incluindo aquelas situadas no espectro dos estados limítrofes.

 

Entretanto, a importância dos vínculos afetivos para a organização de personalidade borderline foi identificada na literatura revisada, respondendo ao objetivo do presente estudo. As pesquisas têm explorado especialmente as características dos vínculos de apego desses indivíduos, identificando uma associação entre organização de personalidade borderline e apego inseguro, especialmente do tipo inseguro desorganizado.

 

Há resultados que apontam também para a importância da presença de psicopatologia materna na história familiar desses casos, e algumas controvérsias sobre o papel que ocupam as experiências traumáticas eventualmente presentes. Esses aspectos reforçam a importância dos vínculos afetivos, na medida em que contribuem sobremaneira para a sua configuração.

 

A partir da revisão realizada, percebe-se que a questão dos vínculos afetivos especificamente dos adolescentes ainda é pouco discutida, carecendo de mais pesquisas. O que se tem sugerido, nesse ponto, é que a história familiar dos adolescentes com organização borderline é frequentemente marcada por situações de desamparo, fragilidades no suporte familiar, vivências de abusos das mais diversas ordens e dinâmicas familiares bastante instáveis, desorganizadas, em que predominam estilos de apego inseguro. A falta de coerência e de estabilidade na identidade e nas relações objetais e as fragilidades nos vínculos afetivos desses jovens parecem ser suas características mais marcantes

 

Embora alguns estudos tenham se dedicado à relação entre a organização borderline e os padrões de apego na infância e adolescência, permanece a necessidade de se compreender em que medida e de que forma as histórias de vida e as características dos vínculos afetivos destes adolescentes contribuem para as manifestações desse sofrimento. Ou seja, examinar como e em que medida as relações objetais destes adolescentes se interligam com o

 

desenvolvimento de uma organização borderline de personalidade. Estudos longitudinais poderiam beneficiar esta discussão.

 

 

 

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