Mariana Rodrigues1

 

RESUMO

 

O artigo é uma revisão bibliográfica sobre a importância da equipe multidisciplinar no tratamento da dependência química. É apresentado um panorama da ação dos principais profissionais de saúde envolvidos no tratamento e por sua vez a importância do trabalho em equipe. Tendo em vista que o tratamento qualificado deve levar em consideração o bem-estar físico, emocional e espiritual do indivíduo.

 

Palavras-chave: multiprofissional; dependência química, saúde mental.

 

 

Introdução

 

O presente artigo tem o objetivo de realizar uma revisão bibliográfica sobre a importância da equipe multidisciplinar no tratamento da dependência química. Por equipe multidisciplinar nos referimos a uma equipe formada por profissionais de saúde das áreas, tais como: psicologia, enfermagem, serviço social, fisioterapia, nutrição, fonoaudiologia, terapia ocupacional e etc. Dessa forma, realizaremos um breve panorama da atuação de cada profissional em cada tratamento, e uma análise da interlocução das profissões entre si.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) define saúde como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente ausência de afecções e enfermidades”. Este conceito é inovador pois está alinhado com as políticas de saúde que dizem respeito às diretrizes do Sistema Único de Saúde, acompanhado de uma tendência internacional que visa uma maior abrangência na assistência dos pacientes. O conceito também realiza um contraponto ao modelo “médicocêntrico” tradicional.

As equipes multidisciplinares têm sido cada vez mais requisitadas na área da saúde, na busca de soluções para os problemas relacionados à qualidade dos cuidados oferecidos. Dessa forma, ao realizarmos um tratamento terapêutico, é necessário levar em consideração os diversos conhecimentos das áreas de saúde.

Segundo Veloso (2009), na área da saúde, até a primeira metade do século passado, cerca de quatro profissionais formalmente habilitados dominavam todo o conhecimento e exerciam todas as ações do setor. Nos tempos atuais, é totalmente

 

 

 

 

1Aluna do curso de formação de Terapeuta em Dependência Química da Clínica Jorge Jaber.

 

impossível que apenas alguns profissionais exerçam, com toda eficiência necessária, o conjunto amplo e complexo das ações de saúde.

 

A multidisciplinaridade no tratamento da dependência química

 

Em termos conceituais, equipe multidisciplinar refere-se ao trabalho e ao estudo de profissionais de diversas áreas do conhecimento ou especialidades sobre determinado tema ou área de atuação. Desse modo, leva em consideração a integração de ações desses profissionais para o objetivo comum de entendimento mais amplo do fenômeno.

O tratamento da dependência de substâncias psicoativas pode ser tomado como exemplo de um campo complexo e multifatorial, que exige abordagem integrada das diversas dimensões implicadas. É considerado consenso na literatura que esse tratamento seja organizado segundo um enfoque interdisciplinar, para além de uma abordagem multidisciplinar.

Nesse contexto, a interdisciplinaridade exige que se pensem as questões relativas

 

  • comunicação entre as diversas áreas de conhecimento, o que exige superar os termos especializados e herméticos, criando-se uma linguagem única e acessível a todos os envolvidos no processo de trabalho para expressar os conceitos e as contribuições das várias disciplinas. O que possibilita a compreensão das diversas facetas do problema e o intercâmbio de possíveis estratégias de solução.

A participação do profissional da saúde na equipe interdisciplinar junto aos usuários de álcool e/ou de drogas tem como fundamento estratégico propor uma assistência com vistas a estabelecer mudanças na vida do paciente. As possibilidades de construção de uma proposta de intervenção em comum e planificada decorrem, em grande parte, de características da equipe, tais como flexibilidade, criatividade, porosidade das fronteiras profissionais e compartilhamento contínuo de saberes.

Tendo em vista a complexidade dos problemas colocados pela dependência química, o tratamento constitui um processo dinâmico, caracterizado pelas interfaces entre as diversas áreas implicadas. Nessa medida, exige uma constante negociação, articulação e integração entre os profissionais da equipe.

Segundo Pinho (2006) a partir da lei 8080/90 o trabalho em equipe multidisciplinar na área da saúde teve grande destaque, com isso maior qualidade dos serviços foi promovida, uma vez que os profissionais da área tiveram que reconhecer a importância dos diferentes olhares para o cuidado integral do paciente.

 

Trabalhar em equipe não é simplesmente estar junto ou passar a informação de um para o outro, é preciso que haja uma cultura colaborativa que permita uma efetiva colaboração entre seus membros de modo a garantir uma complementaridade entre todas as áreas (HINOJOSA, 2001 apud PINHO, 2006).

 

Abordagem Multiprofissional

 

A necessidade de trabalho multiprofissional nos cuidados com a saúde é reconhecida por todos e vem sendo incorporada de forma progressiva na prática diária. Treinados durante a formação para atuar individualmente, os profissionais de saúde vivem uma fase contraditória na qual, mesmo sabendo o que é melhor, se veem com dificuldades e pudores para definir limites, intersecções e interfaces. Este é um trabalho necessário, que exige coragem, determinação e contínua autocrítica para que os objetivos sejam atingidos.

A dependência química é uma doença multifatorial, que requer orientações voltadas para vários objetivos. Objetivos múltiplos exigem diferentes abordagens, e a formação de uma equipe multiprofissional proporcionará essa ação diferenciada.

O trabalho da equipe multiprofissional contribuirá para oferecer ao paciente e à comunidade uma visão mais ampla do problema, dando-lhes conhecimento e motivação para vencer o desafio e adotar atitudes de mudanças de hábitos de vida e adesão real ao tratamento proposto.

 

Atuação dos profissionais de saúde

 

As ações específicas definidas pelas diretrizes de cada profissão devem obviamente ser respeitadas. Nas situações e circunstâncias em que houver superposições de funções, isso deve acontecer de maneira natural e só será possível se houver harmonia entre o grupo, estabelecimento de regras claras e perfeita uniformidade de linguagem. O processo educativo é lento, as mudanças de atitudes são demoradas, e a comunicação clara, objetiva e equilibrada é crucial para o alcance das metas.

O médico atua através da realização de consultas (avaliação clínico laboratorial), diagnósticos/condutas terapêuticas, apoio aos demais membros, administração do serviço etc. O enfermeiro realiza consultas de enfermagem, investigação sobre fatores de risco e hábitos de vida; orientação sobre a doença e o uso regular de medicamentos prescritos pelo médico; Orientações sobre hábitos de vida pessoais e familiares e etc.

O nutricionista realiza a anamnese alimentar, o diagnóstico nutricional e etc. O psicólogo avalia e trata os aspectos emocionais que interfiram na qualidade de vida do

 

paciente, atende os familiares para facilitar as mudanças de hábitos de vida do grupo familiar e a adesão ao tratamento. O assistente social realiza entrevista social para identificação socioeconômica e familiar (visando a uma atuação preventiva), caracterização da situação de trabalho e previdência, e levantamento de expectativas sobre a doença e o seu tratamento.

O educador físico organiza e supervisiona as atividades físicas, presencial ou a distância (individuais e em grupo) dos pacientes, após consulta médica, adequando-as às realidades locais e às características específicas de cada um. Apresentamos a atuação de algumas profissões, porém a equipe pode ter outras configurações, com competências específicas.

 

A importância do trabalho em equipe

 

O número de indivíduos atendidos será maior, a adesão ao tratamento será superior e cada paciente poderá ser um replicador de conhecimentos e atitudes. Haverá favorecimento de ações de pesquisa em serviço e como vantagem adicional, teremos o crescimento profissional no serviço como um todo.

As ações educativas e terapêuticas em saúde devem ser desenvolvidas com grupos de pacientes, seus familiares e a comunidade, sendo adicionais às atividades individuais. A equipe deve usar todos os recursos disponíveis para orientação, educação e motivação a fim de, modificando hábitos de vida, prevenir as recaídas.

 

Considerações Finais

 

O tratamento da dependência química requer uma ação em conjunto, com uma equipe multidisciplinar, comprometida e qualificada. Além do saber médico, que tem papel de suma importância nos resultados do tratamento, os demais profissionais, tais como psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros, educadores físicos, nutricionistas e etc, compõe uma equipe fortalecida para contribuir para o desenvolvimento do paciente adoecido.

 

Na modernidade, o avanço do saber produziu o isolamento das disciplinas e o surgimento de interesses corporativos que levaram a uma fragmentação do conhecimento. O desafio cotidiano é agregar forças, fortalecimento de ideias e troca de experiências. A visão holística que norteia a saúde do trabalhador tem como objetivo primordial a promoção e a proteção da saúde, por meio do desenvolvimento de ações de vigilância dos riscos dos agravos e da organização e prestação da assistência aos

 

trabalhadores, compreendendo procedimentos de diagnóstico, tratamento e reabilitação realizados por equipe multiprofissional de forma integrada (BRASIL, 2006).

O trabalho realizado na Clínica Jorge Jaber é um exemplo de instituição que realiza um tratamento de qualidade com uma equipe multidisciplinar. É notável a repercussão positiva do trabalho na vida dos pacientes internados e de seus familiares. A qualidade do tratamento está ancorada em um repertório comprometido e especializado na superação da dependência química no Brasil e por sua vez, no âmbito internacional, através da participação de seminários e congressos pelo mundo todo.

 

Referências Bibliográficas

 

 

Dependência química: prevenção, tratamento e políticas públicas / Alessandra Diehl… [et

 

al.].Porto Alegre: Artmed, 2011.

 

Ellen Brandão Leite Faria, Marco Antônio Franzero, Carla Christiane de Oliveira Cardia.

 

O Papel da Equipe Multiprofissional nos Serviços de Saúde dos Servidores Públicos Civis Federais. Disponível em:

Lourdes dos Santos Veloso. PARTICIPAÇÃO DO ASSISTENTE SOCIAL EM EQUIPES MULTIDISCIPLINARES DE SAÚDE – UM RELATO DE EXPERIENCIA. Disponível em: <http://www.cressmg.org.br/hotsites/Upload/Pics/39/397c4d3e111c4e38bf90ce85f5c44b4b

 

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V Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial. Arq. Bras. Cardiol., São Paulo , v. 89, n. 3,

 

  1. 17-19, Setembro. 2007.Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php? script=sci_arttext&pid=S0066-782X2007001500012&lng=en&nrm=iso>. Acesso em 26 Nov. 2018.

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Pillon, Sandra & Priolli Jora, Natália & Santos, Manoel. (2011). Cap 42. O papel da equipe multidisciplinar na dependência química. In book: Dependência Química: Prevenção, Tratamento e Politicas Públicas., Edition: 1ª, Chapter: O papel da equipe multidisciplinar na dependência química, Publisher: ARTMED / GRUPO A, Editors: Alessandra Dielh, Daniel Cruz Cordeiro, Ronaldo Laranjeira, pp.453-460