Luciana Castanheira Lobo de Araújo

Rio de Janeiro 2018

Resumo

Levantamentos epidemiológicos (dados diretos) e indicadores epidemiológicos (dados indiretos), têm evidenciado um aumento considerável das apreensões de cocaína, no Brasil, a parir dos anos 80 do século passado.  Em paralelo, houve um aumento do consumo e com isso a cocaína tomou o lugar dos medicamentos como o dextropropoxifeno (Algafan®) e derivados anfetamínicos (“bolinhas”; “arrebites”) na preferência dos usuários desse tipo de substâncias estimulantes.

Palavras chave: cocaína, medicamentos, arrebites, derivados anfetamínicos, estimulantes.

 

Introdução

 

A cocaína já foi comercializada livremente pelo laboratório Bayer, no passado, e enaltecida por suas qualidades medicinais. O Manual MERCK, um livro muito utilizado na área de saúde, em sua primeira edição no último quarto do século XIX, trazia a indicação de cocaína com a dosagem a ser utilizada para situações de cansaço e desânimo;

A folha de coca tem sido usada milenarmente pelos povos andinos para reduzir a fadiga e o cansaço das longas jornadas de trabalho; Em nossa cultura, algumas  pessoas  fazem  uso  de  cocaína  para  se  manterem acordadas e atentas por mais tempo que o habitualmente suportável.

 

Desenvolvimento

 

Um estudo entre adolescentes que procuraram tratamento, na cidade de São  Paulo, encontrou  como  principal  motivo  do  uso  de  cocaína  (64,7%)  o  “alívio  do  desânimo”.  Ao chegar as Américas, no século XVI, os invasores espanhóis entraram em contato com os índios, que costumavam mascar folhas de coca no dia a dia.  Em 1862, um químico alemão, Albert Neiman, isolou seu princípio ativo denominando-o de cocaína, descrevendo suas propriedades anestésicas locais.  A partir do século XIX, na Europa, a droga teve seu uso difundido como um energético, indicado para o tratamento de depressão, fadiga, neurastenia e dependência de derivados do ópio.  A cocaína passou a ser vendida sob várias formas, nas farmácias, como medicação, além de ser encontrada em bares, na forma de vinho (vinho Mariane) e refrigerante.

Já em 1895 a revista The Lancet publicou um artigo com o relato de seis mortes causadas pela cocaína. Até 1906, a Coca-Cola era um xarope que continha coca. Naquela época, os fabricantes, preocupados com o risco de dependência, retiraram a cocaína da fórmula, substituindo-a por cafeína. Em 1914, a venda e o uso de cocaína foram proibidos. O consumo quase desapareceu, retornando a partir da década de 60.

A cocaína pode ser usada sob forma de pó, aspirado pelo nariz, fumada como crack  ou pasta-base, ou por via injetável. A cocaína, usada sob forma de pó, tem que ultrapassar a mucosa do nariz até chegar aos vasos sanguíneos. Quando é injetada ou fumada, chega ao cérebro muito mais rapidamente, pois cai direto nos vasos sanguíneos e é daí impulsionada pelo coração para o cérebro.

Como o tempo de absorção pela mucosa do nariz é muito maior, o início dos efeitos mentais pode levar até 15 minutos, desaparecendo em cerca de 30 minutos. Já o uso injetável ou fumado produz efeitos em cerca de 15 segundos, desaparecendo após aproximadamente 15 minutos. Quanto mais rápidos são o início e o término do efeito, maior a velocidade de estabelecimento de dependência. Por isso, o uso tanto da cocaína como das anfetaminas por via injetável (pó da cocaína ou da metanfetamina) ou fumada (crack, merla ou ice) gera dependência tão rapidamente.

Como o uso de qualquer droga, o seu início em geral é feito em grupo e durante a adolescência. Entre os adolescentes o grupo tem uma importância ainda maior em todas as experiências, inclusive no início do uso de drogas, como a cocaína e as anfetaminas. A maioria das pessoas começa usando outras drogas (como o álcool, os inalantes e a maconha) e depois passa a usar a cocaína e/ou as anfetaminas.

No entanto, tanto pode acontecer de uma pessoa começar usando alguma dessas drogas e não progredir para outras como pode ocorrer de começar direto com a cocaína ou com anfetaminas. Algumas pessoas já têm problemas psíquicos antes de iniciar o uso de drogas, e o seu uso só piora estes quadros. É comum que pessoas que usam cocaína ou anfetaminas apresentem quadros de depressão, ansiedade, timidez excessiva ou quadros psiquiátricos mais graves.  Esses quadros são chamados de comorbidades.

As substâncias que agem no cérebro, provocando alteração nas funções mentais, conseguem esse efeito modificando a comunicação entre as células cerebrais chamadas neurônios. Dessa forma, as drogas usadas abusivamente alteram as funções como o raciocínio, as emoções e os sentidos da visão e audição. Assim, a cocaína e as anfetaminas agem interferindo na comunicação entre os neurônios.

Um dos efeitos dessas drogas é estimular o sistema de recompensa cerebral, aquele sistema que é ativado naturalmente quando o indivíduo faz alguma coisa  agradável  ou  tem  uma  experiência gratificante que provoca a sensação de satisfação. Como a cocaína e as anfetaminas ativam rapidamente esse sistema, elas provocam uma sensação de bem-estar. Também é a ação nesse sistema que faz com que o indivíduo inicie o uso dessas substâncias e, então, com a sua repetição desencadeia a dependência.

 

Objetivo

 

O uso da cocaína e das anfetaminas pode levar à dependência, ou seja, à perda do controle sobre o uso, apesar dos prejuízos produzidos. Quando essas substâncias são administradas entre poucos segundos (quando fumadas) ou minutos (se injetadas ou cheiradas) 10 a 15 segundos após o uso começam as alterações das funções mentais e outros efeitos físicos.

Vamos tratar agora dos efeitos físicos e mentais do uso agudo da cocaína e das anfetaminas.

  • Euforia (sensação de alegria e bem-estar), grandiosidade (sensação  de  ser poderoso, de ter muitas qualidades), hipervigilância (estado de alerta exagerado, tentando prestar atenção a tudo que está à volta), irritabilidade;
  • Agitação, prejuízo do julgamento;
  • Taquicardia (aumento da frequência dos batimentos do coração), aumento  da pressão arterial, arritmias cardíacas;
  • Suor, calafrios, dilatação das pupilas;
  • Alucinações ou ilusões visuais e táteis;
  • Idéias paranóides (sensação de estar sendo perseguido ou de que alguém quer prejudicá-lo ou atacá-lo);
  • Convulsões.

ABSTINÊNCIA:

  • Depressão, ansiedade, irritabilidade;
  • Perda de interesse ou prazer nas coisas de que a pessoa costumava gostar;
  • Fadiga, exaustão;
  • Insônia ou sonolência diurna;
  • Agitação;
  • Aumento do apeite;
  • Ânsia/fissura (vontade muito intensa) pela droga.

RISCOS ASSOCIADOS AO CONSUMO

CONSEQUÊNCIAS PARA A SAÚDE

O uso da cocaína ou das anfetaminas pode causar danos ao organismo, tanto no momento do uso (dano agudo) quanto posteriormente (dano crônico).  Os sistemas orgânicos mais  afetados  são  o  coração  e  as artérias, o cérebro, os pulmões e o sistema reprodutivo.

No coração, a cocaína e as anfetaminas podem provocar inúmeros tipos de danos.  Sob seu efeito as artérias se contraem, diminuindo a passagem de sangue, o que reduz a quantidade de oxigênio, glicose e outros nutrientes transportados. Os estimulantes aceleram o coração e aumentam a pressão arterial.

A aceleração do coração associada à contração das artérias coronarianas pode levar ao infarto agudo do miocárdio. Além disso, podem ocorrer arritmias cardíacas. Com o uso de cocaína ou de anfetaminas, tanto as arritmias quanto o infarto do miocárdio podem ser fatais.

No cérebro, o aumento da pressão arterial e a contração dos vasos sanguíneos podem produzir acidentes vasculares cerebrais, os chamados “derrames”. A cocaína e as anfetaminas, por estimularem excessivamente os do cérebro, podem provocar crises convulsivas, como epilepsia.

O uso crônico produz, pela contração das artérias, danos por isquemia (insuficiente chegada de oxigênio, glicose e nutrientes). Testes especiais podem identificar diminuição da atenção, concentração e memória.  Também pode se instalar um quadro psicóico paranoide, dependendo da quantidade e do tempo de uso.

No pulmão também podem acontecer alterações.  No caso da cocaína, quando ela é fumada, pode surgir um quadro conhecido como “pulmão de crack”, que parece um quadro de pneumonia grave e que pode matar.

Embora, no início, o uso de estimulantes seja relacionado, por alguns usuários, ao aumento da excitação sexual,  muitos  referem  que,  depois  de  certo  tempo  de  uso,  pode  ocorrer diminuição do impulso sexual e impotência.

 

Conclusão

 

Além dos danos relatados, transtornos psiquiátricos podem ser induzidos pelo uso da cocaína. Quadros como ansiedade e depressão podem ocorrer mesmo com pouco tempo de uso moderado. Após o uso em maiores quantidades, durante mais tempo e principalmente sob forma injetável ou fumada, quadros mais graves, como as psicoses, podem ocorrer. A maioria desses quadros é revertida com a cessação do uso.

 

 

Referências Bibliográficas

  • Apostila Supera – 2016 – módulo 1 – cap. 1: A presença das bebidas alcoólicas e outras substâncias psicotrópicas na cultura brasileira; Tarcisio Matos de Andrade, Carlos Geraldo D´Andrea (Grey) Espinheira (in memorian)

 

  • Dependência Química – Prevenção, Tratamento e Políticas Publicas, Ronaldo Laranjeiras e Col2011.

 

  • – Apostila Supera – 2016 – módulo 2 – cap. 4: Drogas estimulantes (anfetaminas, cocaínas e outros): efeitos agudos e crônicos; Roseli Boerngen de Lacerda, Marcelo Santos Cruz, Solange Aparecida Nappo.