Aluna: Michelle Carretero Ramos Henriques

 

Resumo

Atualmente, buscando-se uma conscientização a respeito dos transtornos mentais, o termo psicofobia busca diminuir o preconceito das pessoas a cerca das relações sociais, laborais e afetivas desses portadores. Porém, observa-se também um preconceito dos próprios dependentes químicos em aceitarem a nomenclatura de sua doença como psiquiátrica. O presente trabalho traz uma reflexão a cerca desse estigma para os portadores de dependência química.

Palavra-chave: Psicofobia, dependência química.

 

Psicofobia

O temo “Psicofobia” foi criada através da campanha da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) para diminuir o preconceito a cerca dos transtornos mentais. A campanha teve como patrono o ator Chico Anysio, portador de depressão e dependente químico. Nos relatos do ator, havia a falta de um nome para definir o preconceito assim como existe a homofobia e o racismo, e dessa parceira com a Associação Brasileira de Psiquiatria surgiu o termo “Psicofobia”.

Atualmente está tramitando no Senado Federal o PLS nº 74, de 2014, de autoria do Senador Paulo Davim, que torna a Psicofobia (atitudes preconceituosas e discriminatórias contra os deficientes e os portadores transtornos mentais) um crime, assim como é a Homofobia e o Racismo. Enquanto tal proposta não é aprovada, o mês de Abril é o mês da referida campanha realizada pela ABP – Associação Brasileira de Psiquiatria com ações nacionais e apoio de diversos artistas em prol da causa. Vários artistas assumem seus transtornos mentais a fim de tornar esses diagnósticos mais conhecidos pela população em geral, como depressão, ansiedade, entre outros distúrbios, porém dificilmente presencia-se a transparência a cerca da dependência química, que ainda é considerado um estigma.

 

Dependência Química

O uso de drogas pode ser caracterizado em uso, abuso e dependência. Uso seria a primeira experimentação, onde o indivíduo não é afetado, podendo abandonar a droga. O abuso é o uso mais recorrente, podendo desencadear em dependência. Já a dependência caracteriza-se pela falta de controle, tornando o consumo uma compulsão.

A dependência química é doença reconhecida no CID-10, Código Internacional de Doenças, que especifica o agrupamento códigos F10-F19, como Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de substância psicoativa. O termo substância psicoativa é qualquer substância química que modifica uma ou várias funções do sistema nervoso central, provocando efeitos que podem ser comportamentais e psíquicos.  A dependência é caracterizada quando há uma adaptação do corpo à droga e a sua ausência causa a síndrome de abstinência, pois os neurotransmissores dependem desse uso. Essa ausência causa extremo desconforto como ansiedade, insônia, sentimento de vazio, raiva, tensão, agressividade e o indivíduo busca a continuidade do uso para que tal desconforto não permaneça.

Os transtornos causados pelo uso de substâncias estão relacionados à quantidade utilizada, ou seja, a dosagem. Habitualmente desaparecem com a redução do uso, porém os prejuízos aos usuários de substâncias químicas envolvem o campo social, familiar, educacionais e laborativas além de grandes perdas.

Hoje o primeiro contato com a droga ocorre cada vez mais cedo, principalmente na adolescência fase em que o indivíduo está ainda em formação da personalidade.  Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS, 2001) a dependência química deve ser tratada simultaneamente como uma doença médica crônica e como um problema social.

O tipo de tratamento depende dos riscos, sendo a internação indicada quando há perda de controle e incapacidade de gerenciar a própria vida, além do próprio risco de vida, fatos esses muito comuns aos usuários de drogas. Há também o tratamento ambulatorial, porém é de total relevância seja o tratamento de internação ou ambulatorial, que haja a continuidade através de reuniões baseadas no método Minessota ou 12 passos como os Narcóticos Anônimos ou Alcoólicos Anônimos.

Dependência Química x Psicofobia

Mesmo diante da realidade de compulsão e descontrole, observa-se nos dependentes químicos um estigma em reconhecer “transtorno no uso de drogas” como doença psiquiátrica.

A complicação do uso de drogas tem como resultado quadros psicóticos, possibilidade o desencadeamento de esquizofrenia.

Em observação nos grupos terapêuticos na Clínica Jorge Jaber, fica evidenciado o preconceito dos próprios pacientes dependentes químicos em relação aos pacientes psiquiátricos. Chamando de forma pejorativa de “malucos”, “débeis” ou outras conotações, muitos acreditam que as drogas foram escolhas pessoais, portanto não enxergam o transtorno no uso de substâncias como uma patologia.

Cabe lembrar que os Transtornos mentais e comportamentais pelo uso de drogas têm sugestiva relação genética hereditária, além de responder ao tratamento médico. E como última explicação, ninguém deseja ser dependente químico.

A Psicofobia e o preconceito devem-se também à sociedade que associa o uso de drogas à bandidagem, malandragem, falta de caráter ou de força de vontade, e não como uma doença passível de ser tratada. Essa construção deve-se ao fato do usuário apresentar total descontrole de sua vida durante o uso e abstinência e não enxergar limites em suas ações, inclusive contrariando valores e regras sociais.

Enquanto o dependente químico em recuperação não enxergar seu descontrole como uma compulsão, e sim uma escolha de estilo de vida, dificilmente desconstruirá a psicofobia já existente.

 

Conclusão

A dependência química lesa moral e eticamente, agredindo emocionalmente o dependente e todos de suas relações.

A doença é crônica, porém fica sobre controle se realizar tratamento e ficar abstinente. Portanto, quebrar o estigma e medo de ser rotulado com o doente psiquiátrico é o primeiro passo para o aceite do apoio necessário para a reformulação de vida.

Reconhecer o transtorno do uso de drogas como uma doença, a possibilidade de pedir ajuda e a realização de tratamento é o primeiro passo para que esse estigma seja desconstruído.

 

Bibliografia:

ASSOCIAÇÃO Americana de Psiquiatria. (2002) Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais-DSM IV-TR (4.ed.revisada). Porto Alegre: Artemed.

CID10 (1993) Classificação de transtornos mentais e de comportamento da CID-10: Descrições clínicas e diretrizes diagnósticas – Coord. Organiz. Mund. da Saúde; trad. Dorgival Caetano. Porto Alegre: Editoras Artes Médicas.

Associação Brasileira de Psiquiatria. https://www.psicofobia.com.br/ Acessado em 26/11/2018.