fonte: NewMag
“Uma notícia engole a outra”, diz o jargão jornalístico. Quase dois meses depois da divulgação das primeiras mortes e internações provocadas pela presença criminosa de metanol em drinques vendidos em bares e eventos no estado de São Paulo, o assunto desapareceu quase que por completo das páginas da grande imprensa, compreensivelmente voltada à cobertura de outros fatos. Nesse contexto, o silêncio sobre a contaminação das bebidas pode até ser compreensível, mas o caso ainda pede uma reflexão, inclusive sobre nosso comportamento, individual e coletivo, em resposta a ele.
Foram, não custa lembrar, 60 internações e 15 vítimas fatais, pelo menos até a última atualização do Ministério da Saúde. Entre os sobreviventes, há sequelas graves, muitas vezes irreversíveis, como cegueira parcial ou total, danos neurológicos e cognitivos, com lesões cerebrais permanentes, além de insuficiência metabólica, que prejudica o desempenho de órgãos como fígado, rins e coração. Outro impacto comum é sobre a saúde mental, com a ocorrência de distúrbios psíquicos como ansiedade e depressão, causados, principalmente, pela súbita e inesperada perda da visão.
Não se pode dizer que o episódio tenha passado despercebido – muito pelo contrário. Exaustivamente debatido, provocou revolta nacional, até por suas particularidades: as vítimas eram pessoas maduras – entre 35 e 55 anos – e de boa situação financeira, que se divertiam em locais de alto padrão, em que à primeira vista não se correria o risco de consumir, pagando caro, um produto não somente falsificado, mas também contaminado com metanol. Uma substância extremamente tóxica, de aplicação restrita à indústria, que de forma alguma deve ser ingerida por qualquer ser vivo.
A repercussão foi justa, até necessária, e a cobrança por ações rápidas das autoridades, idem, mas é preciso levantar algumas questões. Num momento em que as bebidas se tornaram uma ameaça à saúde pública, por que falou-se tanto em medidas contra a falsificação – absolutamente necessárias, vale ressaltar – e tão pouco sobre a ideia de evitar, ou pelo menos diminuir, seu uso? A sociedade – eu, você, todos nós – tem o direito de exigir respostas para os problemas, mas também deve avaliar algumas atitudes que, de certa forma, acabam por agravá-los.
É comum, por exemplo, ver pais incentivando filhos mal saídos da infância a beber, como uma espécie de rito de passagem para a adolescência. Com o organismo e o cérebro ainda em formação, essas crianças estão sujeitas a danos físicos e mentais, além do sério risco de desenvolver dependência química – inclusive de drogas mais pesadas, para as quais as bebidas são uma tradicional porta de entrada. Problemas que, cedo ou tarde, chegarão aos sistemas de saúde e previdência, além de prejudicar a economia como um todo, numa conta paga por todos os brasileiros.
Outro costume que seria bom rever é o de associar qualquer situação, de alegria ou tristeza, ao consumo – não raro, excessivo – de álcool. Bebe-se nas vitórias e nas derrotas, como se dores e prazeres só se concretizassem depois de um brinde, num comportamento que, mesmo inconscientemente, transmitimos às novas gerações. Este hábito pode até estar enraizado entre muitos de nós, mas com um pouco de consciência e determinação, somos capazes de mudar, mostrando aos jovens que é possível ser feliz, amado e bem visto pelos amigos sem, necessariamente, ter um copo sempre na mão.
Além de exemplos construtivos, podemos passar do discurso à ação. Num momento em que as bebidas estão no centro das atenções, uma campanha de alerta sobre seus riscos e de prevenção ao consumo abusivo e precoce certamente traria bons resultados. Não se trata de demonizar o álcool, pois sua presença em nossa sociedade parece inevitável, mas de defender, se não a abstinência, o uso consciente e moderado, principalmente entre os jovens. Se conseguirmos evitar que eles passem ainda cedo a usar uma substância potencialmente danosa, já teremos prestado um belo serviço ao país.
Iniciativas neste sentido não precisam partir do governo ou de entidades formais. A conscientização pode ser promovida em pequenos grupos, ou até individualmente, com medidas simples, como a divulgação de materiais de campanha e informações confiáveis, disponíveis nos sites do Ministério da Saúde e da Fundação Oswaldo Cruz, entre outros. Outro ponto crucial é combater o preconceito contra os portadores de dependência química, que é uma doença, não uma fraqueza de caráter. Pequenas ações como estas estão ao alcance de todos, e trarão benefícios para toda a sociedade.
Jorge Jaber é psiquiatra e grande benfeitor da Academia Nacional de Medicina
