fonte: NewsMag
“Antes mundo era pequeno
Porque Terra era grande
Hoje mundo é muito grande
Porque Terra é pequena
Do tamanho da antena parabolicamará
Ê, volta do mundo, camará
Ê, ê, mundo dá volta, camará”…
Em “Parabolicamará”, lançada no distante ano de 1992, Gilberto Gil usa a capacidade premonitória dos grandes artistas para descrever um planeta hiperconectado, com distâncias e fronteiras praticamente eliminadas pela frenética difusão de informações e conhecimentos. Guardadas as devidas proporções, um retrato preciso, 33 anos e muitos avanços tecnológicos depois, do mundo atual, em que compras e pagamentos, consultas médicas, encontros amorosos, julgamentos, viagens, estudos – tudo, enfim – pode ser feito com um toque na tela do celular.
Estamos, porém, diante de um paradoxo: os inegáveis benefícios da “onda luminosa” – novamente pegando carona na genialidade do compositor – vêm inevitavelmente acompanhados de uma aceleração no ritmo de vida e de profundas mudanças nas relações sociais e nos modelos de trabalho. Um panorama sem dúvida estimulante, mas com alguns efeitos indesejados. Entre eles, o aumento dos casos de transtornos mentais como ansiedade e depressão, que, segundo a Organização Mundial da Saúde, devem atingir um em cada quatro habitantes do planeta nos próximos anos.
O frenesi virtual ajuda a entender a explosão dessas doenças. A sobrecarga de estímulos, como o excesso de informações, muitas altamente duvidosas, e a pressão permanente por resultados, inclusive em relação à aparência, mantêm o cérebro sempre em alerta, num desgaste que abre as portas para essas doenças. Ela cria, também, um quadro de isolamento e de busca sem limites por sucesso e status social, levando ao perfeccionismo exagerado e à eterna sensação de insuficiência, mistura que, associada ao sedentarismo e má alimentação, também facilita sua ocorrência.
A relação entre abuso das telas e enfermidades mentais é comprovada por muitos estudos em psicologia, psiquiatria e neurociência e reconhecida pela Organização Mundial da Saúde. Não se trata, portanto, de alarmismo: o ambiente digital de nossos tempos é um fator de risco crescente para o bem-estar geral da humanidade, inclusive dos não atingidos diretamente por problemas psíquicos. Numa sociedade cada vez mais dependente da tecnologia, a questão tende a se agravar, e precisamos pensar em estratégias individuais e coletivas para enfrentá-la de forma rápida e eficaz.
A prevenção começa em casa, com atividade física regular e alimentação equilibrada e rica em nutrientes como ômega-3, triptofano e magnésio, que atuam na regulação de neurotransmissores como serotonina e dopamina e, assim, colaboram com as funções cerebrais e o equilíbrio emocional. Eles são encontrados em peixes de águas frias e carnes magras, ovos, laticínios, sementes, banana, cereais integrais, nozes, grão-de-bico, feijão, soja, óleos de linhaça e canola e verduras verde-escuras como espinafre e acelga, entre outros alimentos. Opções de sobra para um cardápio variado e saboroso.
Outra medida positiva é a prática de mindfulness, ou atenção plena, que tenta, de forma consciente, voluntária e sem julgamentos, manter a mente focada no momento atual. Isso ensina a observar pensamentos, emoções e sensações corporais, aceitando-os em vez de reagir automaticamente a eles. Com exercícios diários, que podem ser aprendidos em diversos canais na internet, é possível trabalhar simultaneamente a respiração e o manejo de pensamentos, identificando e afastando os negativos. Isso reduz o estresse e aumenta nossa resistência contra possíveis problemas emocionais.
Precisamos, ainda, de intervenções em nível coletivo. As empresas devem oferecer ambientes de trabalho humanizados e saudáveis, em que a pressão por desempenho não ultrapasse os limites do razoável e nenhuma forma de assédio seja tolerada. As escolas também podem colaborar, incentivando o uso consciente e supervisionado das telas e investindo desde a infância na educação emocional. A atuação dos governos – de todas as esferas –, com estratégias integradas e políticas públicas com foco na conscientização e prevenção, é outro ponto crucial.
Tudo indica que ansiedade, depressão e outros transtornos se transformarão em questões ainda mais sérias nos próximos anos, pois ainda estamos longe de eliminar suas principais causas – entre elas, a sobrecarga informacional e emocional que a hiperconexão nos impõe. Um cenário que, num mundo a cada dia mais veloz e exigente, só tende a se agravar, e para o qual temos, na medida do possível, que estar preparados. A sociedade brasileira já mostrou, em outros momentos decisivos, que consegue se unir contra grandes desafios, e a saúde mental de nossa população é certamente um deles.
Jorge Jaber é psiquiatra e grande benfeitor da Academia Nacional de Medicina
