fonte: NewMag
Que tal, em pleno 2025, ter uma expectativa de vida próxima dos 35 anos, enquanto a da população em geral é de mais de 76? Como você se sentiria se sua chance de ser assassinado, normalmente sem qualquer motivo e com requintes de crueldade, fosse 10 vezes maior do que a média do país? Qual seria sua reação passando dias, meses, anos, toda a existência, com medo de agressões físicas ou psicológicas, ou com a clara percepção de que, para você, tudo – acesso aos serviços públicos, bons empregos, respeito social – é sempre mais difícil do que para os outros?
Este é, infelizmente, o duro cotidiano enfrentado pela enorme maioria das pessoas trans e travestis no Brasil. Somos, simplesmente, o país com mais assassinatos de integrantes desse grupo no mundo: em 2024, foram 122 casos, número até menor do que o registrado em 2023, mas que ainda nos deixa, pelo 16º. ano consecutivo, na vergonhosa liderança desse ranking infame. Os dados são da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), e mostram também o perfil de grande parte das vítimas: mulheres jovens, pretas, pobres e nordestinas. Uma verdadeira sopa de preconceito.
O relatório da Antra revela também que esses crimes normalmente ocorrem em locais públicos, porém desertos, durante a noite e com uso excessivo de violência. Outro ponto destacado no documento é a subnotificação, pois as autoridades responsáveis pelo registro dos casos nem sempre identificam as vítimas com sua verdadeira identidade de gênero, ou seja, como transexuais ou travestis. Além disso, não costumam se dedicar muito à investigação, o que ajuda a explicar os baixos índices de episódios solucionados: em 2019, por exemplo, só em 11 dos 124 homicídios – 7% – os autores foram presos.
Uma dessas violências ainda impunes – pelo menos por enquanto, espera-se – ocorreu recentemente com Alice Martins, uma transexual de apenas 33 anos que morreu no hospital duas semanas depois de internada para tentar se recuperar da agressão cometida por um homem quando saía de um bar na Savassi, uma das regiões mais nobres de Belo Horizonte. As câmeras de segurança mostram a cena, assustadora tanto pela brutalidade do agressor quanto pela reação de dois outros indivíduos, que, além de não prestar socorro à vítima, riam sem qualquer constrangimento da situação.
O caso nos remete ao livro “Eichmann em Jerusalém”, em que a filósofa Hannah Arendt se debruça sobre o julgamento de Adolf Eichmann, um dos responsáveis pelo Holocausto durante a Segunda Guerra Mundial. Na obra, ela cria o conceito da “banalidade do mal” para explicar como pessoas em princípio comuns, gente como a gente, são capazes de cometer atrocidades sem qualquer questionamento ético ou medo da Justiça. Atos, guardadas as devidas proporções, muito semelhantes aos que vêm tirando a paz – e até a vida – de tantas outras Alices pelo Brasil.
Arendt afirma que o comportamento de Eichmann se deve à ausência de pensamento crítico e à noção, ainda que equivocada, de dever. Ele agiria sem pensar na moralidade de suas ações, apenas seguindo ordens, na crença de que o respeito à lei e ao sistema político de então, mesmo que totalitário, o isentaria de responsabilidade. Suas ações não seriam, portanto, frutos de uma maldade inata ou premeditada, e sim de uma renúncia inconsciente à possibilidade de pensar e de avaliar as próprias atitudes. Um raciocínio que gerou muita controvérsia e acusações de antissemitismo à pensadora.
No caso dos ataques a pessoas trans e dos também frequentes episódios de misoginia e xenofobia no Brasil, esses “atenuantes” não são válidos. Sua raiz está em duas tristes marcas de nosso país: preconceito e sensação de impunidade. Questões que preferimos, inconscientemente ou não, ignorar, mas que devemos combater, pois não podemos condenar grupos de nossa população a uma vida regida pelo medo e infelicidade. Um passo crucial nesse sentido é não fechar os olhos diante desses crimes de ódio, exigindo a devida punição aos responsáveis. A luta contra o preconceito é longa, mas precisa, em algum momento, começar.
Jorge Jaber é psiquiatra e grande benfeitor da Academia Nacional de Medicina
