{"id":1713,"date":"2017-11-14T13:12:25","date_gmt":"2017-11-14T16:12:25","guid":{"rendered":"http:\/\/clinicajorgejaber.com.br\/novo\/?p=1713"},"modified":"2017-11-14T13:12:25","modified_gmt":"2017-11-14T16:12:25","slug":"alcool-e-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/clinicajorgejaber.com.br\/novo\/2017\/11\/alcool-e-mulheres\/","title":{"rendered":"\u00c1lcool e Mulheres"},"content":{"rendered":"<p>Aluna: Luzinete Pereira<\/p>\n<p>O uso de \u00e1lcool por mulheres \u00e9 tema de importante repercuss\u00e3o na literatura cient\u00edfica. Isso ocorre devido ao fato de esse tema ser fonte de muita pol\u00eamica e de alarde constante. Estudos epidemiol\u00f3gicos sugerem haver novas tend\u00eancias no padr\u00e3o de uso de \u00e1lcool entre as mulheres, com poss\u00edvel aumento de uso entre as mulheres de pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina e nos EUA. \u00c9 sabido tamb\u00e9m que a intensidade dos efeitos dessa subst\u00e2ncia no organismo das mulheres \u00e9 mais exacerbada em compara\u00e7\u00e3o aos homens. Isso ocorre em especial devido a menor quantidade de \u00e1gua presente no organismo das mulheres, o que faz com que o \u00e1lcool seja distribu\u00eddo e metabolizado mais rapidamente, e devido tamb\u00e9m a menor presen\u00e7a entre as mulheres de enzimas hep\u00e1ticas que metabolizam essa subst\u00e2ncia. Assim, o impacto causado pelas bebidas alco\u00f3licas no organismo das mulheres \u00e9 maior do que no organismo masculino mediante a ingest\u00e3o de quantidades iguais de \u00e1lcool1 (NIAAA, 1999). Afora isso, o \u00e1lcool tamb\u00e9m acarreta a\u00e7\u00e3o nociva sobre a gesta\u00e7\u00e3o e exp\u00f5e a mulher \u00e0 pr\u00e1tica de viol\u00eancia2 (Wilsnack, 2006). Vale salientar, entretanto, que a ingest\u00e3o de doses moderadas de \u00e1lcool por mulheres tamb\u00e9m est\u00e1 associado (\u00e0 semelhan\u00e7a dos homens) com a\u00e7\u00e3o protetora sobre o sistema cardiovascular, diminuindo assim, o risco de mortalidade entre mulheres. Todos esses fatores somados refor\u00e7am a necessidade de se conhecer mais a fundo essa importante quest\u00e3o.<\/p>\n<p>1) Epidemiologia do uso de \u00e1lcool entre mulheres<\/p>\n<p>1.1 \u2013 Epidemiologia na Am\u00e9rica Latina<\/p>\n<p>1.1A) Estudos populacionais no Brasil<br \/>\nSegundo dados do I Levantamento Domiciliar Sobre o Uso de Drogas Psicotr\u00f3picas no Brasil \u2013 2001 3, 60,6% das mulheres j\u00e1 fizeram uso na vida de \u00e1lcool, com destaque para aquelas na faixa et\u00e1ria entre 18-24 anos, com 68,2% de uso na vida. Segundo o mesmo estudo, 5,7% da popula\u00e7\u00e3o feminina do Brasil acusava diagn\u00f3stico de depend\u00eancia de \u00e1lcool. No ano de 2005, com a realiza\u00e7\u00e3o do II Levantamento Domiciliar no Brasil, os autores constataram que o uso na vida de \u00e1lcool por mulheres foi de 68,3%, com destaque para as mulheres de 25-34 anos de idade, com 73,0% de men\u00e7\u00e3o a uso na vida. A depend\u00eancia de \u00e1lcool, por sua vez, foi constatada em 6,9% das mulheres entrevistadas 4. Esses dados sugerem haver aumento no consumo de \u00e1lcool entre as mulheres no Brasil.<\/p>\n<p>1.1B) Levantamentos populacionais na cidade de S\u00e3o Paulo<br \/>\nSilveira e colegas5 investigaram o consumo de bebidas alco\u00f3licas em uma amostra de 1.464 pessoas residentes dos bairros de Vila Madalena e Jardim Am\u00e9rica. Os autores observaram que o beber pesado (4 ou mais doses de \u00e1lcool para mulheres) se mostrou um padr\u00e3o de consumo comum nesta amostra, com 10.7% dos entrevistados fazendo men\u00e7\u00e3o ao uso pesado do \u00e1lcool, sendo 7.2% mulheres. Al\u00e9m disto, as maiores taxas de beber pesado entre as mulheres foram observadas entre aquelas de 18 e 44 anos de idade e as que n\u00e3o eram casadas, ou seja, separadas, divorciadas, vi\u00favas ou solteiras.<\/p>\n<p>1.1C) Levantamentos populacionais na cidade de Botucatu-SP<br \/>\nKerr-Corr\u00eaa e colegas6 entrevistaram 740 sujeitos (50,3% eram homens e 49,7% eram mulheres) em Botucatu-SP. Trata-se de uma cidade de 108.306 habitantes localizada no interior do Estado de S\u00e3o Paulo. Os autores investigaram os padr\u00f5es de consumo de \u00e1lcool e o dividiram em 8 categorais, com destaque para as seguintes: abstinente (aus\u00eancia de consumo de \u00e1lcool nos \u00faltimos 12 meses), uso leve e epis\u00f3dico (ingest\u00e3o de ao menos 1 dose e n\u00e3o mais de 3 doses de \u00e1lcool por ocasi\u00e3o durante no m\u00e1ximo 1 dia do \u00faltimo m\u00eas), uso moderado e peri\u00f3dico (uso de ao menos 3 e n\u00e3o mais de 4 doses de \u00e1lcool por ocasi\u00e3o ao menos semanal) e uso problem\u00e1tico de \u00e1lcool (uso de ao menos 5 doses de \u00e1lcool por ocasi\u00e3o ao menos semanalmente nos \u00faltimos 12 meses associado com ao menos 1 complica\u00e7\u00e3o de natureza m\u00e9dica, legal, familiar ou no trabalho e ao menos 1 sintoma de depend\u00eancia de \u00e1lcool). Os autores constataram que 45,5% dos entrevistados eram abstinentes de \u00e1lcool, ao passo que 18,1% fizeram uso leve e peri\u00f3dico; 6,9% relataram fazer uso moderado e peri\u00f3dico e 4,2% uso problem\u00e1tico de \u00e1lcool. Em termos gerais, os padr\u00f5es de consumo de \u00e1lcool foram similares para ambos os sexos e tenderam para a modera\u00e7\u00e3o. Essa similaridade foi mais marcante quando a compara\u00e7\u00e3o com os homens teve como alvo as mulheres que necessitam sair de casa para trabalhar ou que se definiram como sendo desempregadas. Vale salientar, entretanto, que os homens apresentaram maior consumo em termos gerais de \u00e1lcool e, em particular, entre os bebedores problem\u00e1ticos dessa subst\u00e2ncia, houve predom\u00ednio de homens na faixa et\u00e1ria de 35-49 anos em compara\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres. Entre os fatores de risco para o uso de \u00e1lcool entre ambos os sexos houve o n\u00edvel elevado de escolaridade e hist\u00f3rico familiar de problemas com \u00e1lcool. Esses dados sugerem haver mudan\u00e7as nos pap\u00e9is sociais dos homens e das mulheres em prol de uma aproxima\u00e7\u00e3o de ambos.<\/p>\n<p>1.1D) Uso de \u00e1lcool entre mulheres nos EUA2<br \/>\nDe acordo com os dados epidemiol\u00f3gicos dos anos de 1981, 1991 e 2001 nos Estados Unidos (tendo como foco a preval\u00eancia de uso de bebidas no m\u00eas e no ano, a preval\u00eancia de uso pesado de \u00e1lcool &#8211; 6 ou mais doses de \u00e1lcool em um dia &#8211; e relatos subjetivos de embriaguez), observou-se que no per\u00edodo analisado de 20 anos o uso de apresentou altern\u00e2ncias, com diminui\u00e7\u00e3o entre o per\u00edodo compreendido entre 1981-1991 e aumento entre 1991-2001. Observou-se tamb\u00e9m que \u00e0 medida que as mulheres envelheceram, elas tenderam a diminuir\/abandonar o consumo de \u00e1lcool. Ademais, observou-se que o consumo pesado de \u00e1lcool entre 1981-2001 diminuiu entre as mulheres. Entretanto, houve aumento no n\u00famero de relato subjetivos de embriaguez. Essa aparente contradi\u00e7\u00e3o possivelmente \u00e9 fruto do aumento da consci\u00eancia das mulheres em rela\u00e7\u00e3o aos efeitos do \u00e1lcool. Obervou-se, tamb\u00e9m que no per\u00edodo em quest\u00e3o tanto o consumo de \u00e1lcool quanto seu uso pesado e os relatos de embriaguez tenderam a diminuir\/cessar \u00e0 medida que as mulheres envelheceram.<\/p>\n<p>11E) Uso de \u00e1lcool entre mulheres mexicanas7<br \/>\nSlone e colegas (2006) investigaram tanto o uso quanto o uso indevido de \u00e1lcool em tr\u00eas cidades mexicanas, assim como tamb\u00e9m buscou-se compreender os aspectos s\u00f3cio-demogr\u00e1ficos e a ocorr\u00eancia na vida de eventos estressantes associados ao uso de bebidas alco\u00f3licas. A amostra investigada foi dividida em 3 grupos: abstinente (uso de menos de 12 doses de \u00e1lcool na vida), bebedor sem problemas (12 ou mais doses na vida sem evid\u00eancia de abuso ou depend\u00eancia) e bebedor problem\u00e1tico (12 ou mais doses na vida com ao menos 1 sintoma de abuso e depend\u00eancia segundo o DSM-IV). Do total de sujeitos inicialmente entrevistados, 902 foram classificados como abstinentes, 452 como bebedores sem problemas relacionados ao uso e 577 como bebedores problem\u00e1ticos. Os autores constataram que os mexicanos entrevistados no estudo eram menos propensos a fazer uso de \u00e1lcool na vida do que as amostras encontradas em pa\u00edses desenvolvidos (54% compara\u00e7\u00e3o com 67-84%). Constatou-se tamb\u00e9m que na referida amostra o uso de \u00e1lcool foi mais prevalente entre os homens (77%) em compara\u00e7\u00e3o com as mulheres (34%). Ademais, notou-se que a men\u00e7\u00e3o a sintomas tanto de abuso quanto de depend\u00eancia de \u00e1lcool tamb\u00e9m foi mais frequente em os homens. Os homens de maior poder aquisitivo e os homens casados relataram consumir mais \u00e1lcool do que aqueles com menor poder aquisitivo e solteiros, respectivamente, ao passo que baixo poder aquisitivo esteve associado com abstin\u00eancia. Constatou-se tamb\u00e9m que o uso indevido de \u00e1lcool esteve associado com hist\u00f3rico de viv\u00eancia de experi\u00eancias traum\u00e1ticas e estressantes na vida. Por fim, vale salientar que este estudo apresenta limita\u00e7\u00f5es na medida em que a escala utilizada (CIDI-Composite International Diagnostic Interview) n\u00e3o permitiu aos autores captar tanto a frequ\u00eancia quanto a quantidade de \u00e1lcool consumida pela amostra, assim como as particularidades do uso de \u00e1lcool feito em ocasi\u00f5es especiais no M\u00e9xico.<\/p>\n<p>2) \u00c1lcool, mulheres e sa\u00fade<\/p>\n<p>2.1 &#8211; Uso leve-moderado de cerveja e funcionamento f\u00edsico e psicomotor de mulheres8<br \/>\nNa Am\u00e9rica do Norte, em torno de 65-73% dos adultos fazem uso de \u00e1lcool. Grande parte desse consumo \u00e9 feito de maneira moderada e ocorre na noite anterior a um dia de trabalho. Compreender os efeitos residuais dessa pr\u00e1tica \u00e9 de grade import\u00e2ncia na avalia\u00e7\u00e3o do impacto do uso de \u00e1lcool no desempenho no trabalho, na produtividade e na seguran\u00e7a. Atentos a essa quest\u00e3o, Kruisselbrink e colegas (2006) executaram testes f\u00edsicos (com medi\u00e7\u00e3o da press\u00e3o sangu\u00ednea, corrida na esteira) e neuropsicol\u00f3gicos (medi\u00e7\u00e3o da cogni\u00e7\u00e3o e do tempo de rea\u00e7\u00e3o) em uma amostra de 12 mulheres saud\u00e1veis com m\u00e9dia de idade de 22 anos. As participantes consumiram 0, 2, 4 ou 6 garrafas de cerveja (5% GL) em um laborat\u00f3rio durante 4 sess\u00f5es de teste. As primeiras 2 garrafas de cerveja foram ingeridas em um intervalo de 30 minutos ao passo que as doses adicionais de \u00e1lcool foram administradas em intervalos de 40 minutos. Em seguida, avaliaram-se os efeitos subjetivos de ressaca mencionados pelas entrevistadas. Os autores constataram que os sintomas de ressaca foram dose-dependente (foram mais intensos \u00e0 medida que aumentava o consumo de \u00e1lcool). Observou-se que o uso de \u00e1lcool na noite anterior n\u00e3o prejudicou o funcionamento fisiol\u00f3gico e f\u00edsico das avaliadas, entretanto, houve piora dose-dependente no desempenho cognitivo de realiza\u00e7\u00e3o de tarefas. Concluiu-se que o uso moderado de \u00e1lcool pode ter impacto negativo na cogni\u00e7\u00e3o de mulheres dentro de um per\u00edodo razo\u00e1vel de tempo sem, entretanto, afetar o seu funcionamento f\u00edsico e fisiol\u00f3gico.<\/p>\n<p>2.2 &#8211; Uso de \u00e1lcool durante a gravidez, S\u00edndrome Fetal Alco\u00f3lica e transtornos psiqui\u00e1tricos na prole em idade adulta9,10<br \/>\nOs transtornos relacionados \u00e0 S\u00edndrome Fetal Alco\u00f3lica incluem les\u00f5es f\u00edsicas, cognitivas e de mem\u00f3ria em crian\u00e7as que nasceram de m\u00e3es que faziam consumo de bebidas alco\u00f3licas durante a gesta\u00e7\u00e3o. A forma mais severa desse tipo de transtorno \u00e9 a pr\u00f3pria S\u00edndrome Fetal Alco\u00f3lica (SFA), que \u00e9 caracterizada por anomalias faciais distintas, d\u00e9ficit intelectual, problemas cognitivos e problemas comportamentais.<br \/>\nApesar de apresentar in\u00fameras limita\u00e7\u00f5es intelectuais, a crian\u00e7a com SFA apresenta boa performance nos testes de linguagem, mas ainda assim apresenta dificuldades nos testes de aritm\u00e9tica e em seu desenvolvimento s\u00f3cio-emocional. Portanto, as crian\u00e7as com SFA apresentam algum tipo de retardo pr\u00e9-natal ou p\u00f3s-natal, que geram uma s\u00e9rie de problemas cognitivos ou de comportamento.<br \/>\nCientes dessas limita\u00e7\u00f5es, Burden e colegas (2005) investigaram os aspectos espec\u00edficos na aten\u00e7\u00e3o mais afetados pela exposi\u00e7\u00e3o leve ou pesada de \u00e1lcool. Para isso, foi utilizada uma amostra de 337 crian\u00e7as negras na faixa de 7,5 anos de idade, escolhidas por terem m\u00e3es que fizeram consumo de bebidas alco\u00f3licas durante a gesta\u00e7\u00e3o. Notou-se que as crian\u00e7as apresentaram mais impulsividade, d\u00e9ficit de mem\u00f3ria e aten\u00e7\u00e3o. Os efeitos adversos do consumo de \u00e1lcool foram exacerbados, principalmente em crian\u00e7as com m\u00e3es que faziam consumo pesado de \u00e1lcool e apresentavam idade acima de 30 anos. O estudo concluiu que a mem\u00f3ria e a aten\u00e7\u00e3o s\u00e3o fatores afetados pelo consumo de \u00e1lcool durante a gesta\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEm outro estudo, Barr e colegas (2006) buscaram medir a associa\u00e7\u00e3o entre transtornos psiqui\u00e1tricos e exposi\u00e7\u00e3o aos efeitos do \u00e1lcool durante a gesta\u00e7\u00e3o. Aproximadamente 500 rec\u00e9m-nascidos foram acompanhados em diferentes etapas de sua vida: ao nascer, aos 8 e 18 meses, aos 4, 7, 11, 14, 21 e 25 anos de idade. Essa amostra foi avaliada quanto \u00e0 incid\u00eancia de transtornos psiqui\u00e1tricos e o uso de \u00e1lcool pelas m\u00e3es durante a gravidez. O uso de \u00e1lcool pelas m\u00e3es foi avaliado pela frequ\u00eancia e quantidade e pela ocorr\u00eancia de epis\u00f3dios de uso pesado de \u00e1lcool (cinco ou mais doses de \u00e1lcool por ocasi\u00e3o). Segundo os pesquisadores, 17,8% das m\u00e3es relataram epis\u00f3dios de uso pesado de \u00e1lcool durante a gravidez; 37,5% relataram abstin\u00eancia ou uso em pequenas quantidades de maneira indefinida durante esse per\u00edodo; 37,5 % fizeram uso moderado de \u00e1lcool (1 dose por dia para mulheres). Os autores constataram que as chances de manifesta\u00e7\u00e3o de seis tipos de doen\u00e7as psiqui\u00e1tricas classificados pelo DSM-IV (destaque para transtornos de personalidade e transtornos relacionados ao uso de subst\u00e2ncias) foram mais do que duas vezes maior entre os jovens que foram expostos ao uso pesado de \u00e1lcool durante a fase pr\u00e9-natal. Esses dados sugerem que o uso de \u00e1lcool durante a gesta\u00e7\u00e3o \u00e9 um importante fator de risco para a ocorr\u00eancia de doen\u00e7as psiqui\u00e1tricas na prole em idade adulta.<\/p>\n<p>2.3 &#8211; Quantidade e padr\u00e3o de consumo de \u00e1lcool, tipo de bebida e mortalidade11,12,13<br \/>\nEm outra pesquisa, Di Castelnuovo e colegas (2006) conduziram uma meta-an\u00e1lise com estudos prospectivos sobre o tema \u00e1lcool (cerveja, vinho, destilados) e mortalidade entre homens e mulheres. Ao todo 34 estudos foram levantados, contando com amostras totalizando 1.015.835 sujeitos e descrevendo 56 curvas de ingest\u00e3o de \u00e1lcool e mortalidade. Desse total, 28 curvas foram tra\u00e7adas em europeus, 17 em americanos e 11 em outras popula\u00e7\u00f5es. Os autores observaram haver com doses mais baixas de \u00e1lcool uma diminui\u00e7\u00e3o no risco de mortalidade (tanto para homens quanto para mulheres) e com doses mais elevadas aumentando desse risco. Vale salientar que a perda dessa \u201cprote\u00e7\u00e3o\u201d do uso moderado de \u00e1lcool ocorre entre as mulheres a partir de doses mais baixas do que para homens e que as mulheres tamb\u00e9m s\u00e3o expostas mais do que homens a maior risco de mortalidade com a ingest\u00e3o de doses mais elevadas de \u00e1lcool. Os autores tamb\u00e9m especulam que a maior vulnerabilidade das mulheres ao \u00e1lcool seja fruto da ocorr\u00eancia de c\u00e2nceres assim como de mecanismos fisiol\u00f3gicos diferenciados para homens e mulheres de metaboliza\u00e7\u00e3o das bebidas. Tolstrup e colegas (2006) acompanharam por 5,7 anos uma amostra de 28.448 mulheres e 25.052 homens que n\u00e3o haviam manifestado doen\u00e7a cardiovascular at\u00e9 o in\u00edcio do estudo. Durante esse per\u00edodo, buscou avaliar a incid\u00eancia de doen\u00e7a coronariana, os h\u00e1bitos alimentares, pr\u00e1tica de exerc\u00edcios, tabagismo e uso de \u00e1lcool.<br \/>\nO consumo de \u00e1lcool foi dividido nas seguintes categorias: abst\u00eamios, uso de \u00e1lcool menos de 1 vez por m\u00eas, 1-3 vezes por m\u00eas, 1 vez por semana, 2-4 vezes por semana, 5-6 vezes por semana e diariamente. Durante o per\u00edodo de vig\u00eancia do estudo, 749 mulheres e 1283 homens desenvolveram doen\u00e7a coronariana. Constatou-se que a frequ\u00eancia de \u00e1lcool ingerido esteve associada de maneira inversa com a manifesta\u00e7\u00e3o de doen\u00e7a coronariana tanto em homens quanto em mulheres. Entre as mulheres, a ingest\u00e3o de \u00e1lcool na frequ\u00eancia \u201cao menos 1 dia por semana\u201d esteve associada com menor risco de manifesta\u00e7\u00e3o dessa doen\u00e7a em compara\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres que fizeram uso menos frequente. Esses achados podem ser explicados por diversos motivos: a\u00e7\u00e3o do \u00e1lcool sobre o HDL (colesterol bom), redu\u00e7\u00e3o na agrega\u00e7\u00e3o plaquet\u00e1ria e a\u00e7\u00e3o estimulante do \u00e1lcool sobre os n\u00edveis do horm\u00f4nio feminino estr\u00f3geno (horm\u00f4nio que apresenta a\u00e7\u00e3o protetora do cora\u00e7\u00e3o). Os autores conclu\u00edram que para as mulheres, a quantidade de \u00e1lcool ingerido foi mais importante do que a frequ\u00eancia como fator determinante da associa\u00e7\u00e3o inversa entre a ingest\u00e3o de \u00e1lcool e doen\u00e7a coronariana.<\/p>\n<p>Os estudos prospectivos (estudos que acompanham a amostra ao longo do tempo) em geral apontam para um risco reduzido de doen\u00e7a coronariana em indiv\u00edduos que fazem uso moderado de \u00e1lcool (at\u00e9 1 dose de \u00e1lcool por dia para mulheres) quando comparados aos abst\u00eamios. Os resultados obtidos nesses estudos tamb\u00e9m indicam que o padr\u00e3o de consumo \u00e9 importante nessa rela\u00e7\u00e3o, de tal forma que o uso frequente e regular de \u00e1lcool \u00e9 mais ben\u00e9fico do que o uso de \u00e1lcool no padr\u00e3o \u201cbinge\u201d (4 ou mais doses de \u00e1lcool por ocasi\u00e3o para mulheres). Contudo, as diferen\u00e7as da associa\u00e7\u00e3o entre o uso de \u00e1lcool, doen\u00e7a coronariana e sexo permanecem desconhecidas.<br \/>\nDe uma forma mais ampla, h\u00e1 diversas pesquisas relacionando o padr\u00e3o de consumo de \u00e1lcool com altera\u00e7\u00f5es no risco de mortalidade entre homens e mulheres. \u00c9 sabido, por exemplo, que os bebedores moderados apresentam menores taxas de risco de mortalidade quando comparados com os abst\u00eamios que, por sua vez, apresentam menor risco de morte que os bebedores pesados. H\u00e1, contudo, cr\u00edticas a esse modelo. Especialistas afirmam que dentre os abst\u00eamios h\u00e1 uma categoria de ex-bebedores que abandonou o consumo de \u00e1lcool por motivos de sa\u00fade, causando confus\u00e3o nessa classifica\u00e7\u00e3o. Dois outros aspectos tamb\u00e9m pertinentes a esse universo e que permanecem incertos na literatura \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre consumo de \u00e1lcool\/dias da semana e risco de morte e tipo de bebida ingerida\/risco de morte. Assim, um grupo de pesquisadores australianos acompanhou por aproximadamente 10,5 anos uma amostra de 36.984 pessoas residentes em Melbourne\/Austr\u00e1lia a fim de avaliar o padr\u00e3o de consumo de \u00e1lcool, tipo de bebida consumida e risco de morte. A amostra foi dividida em \u201cabst\u00eamios\u201d (menos de 12 doses em 1 ano), \u201cex-bebedores\u201d (aqueles que no in\u00edcio do estudo n\u00e3o faziam uso de \u00e1lcool, mas que n\u00e3o se encaixavam entre os \u201cabst\u00eamios\u201d), \u201cbebedores ocasionais\u201d, 0,6-19 gramas de \u00e1lcool\/dia, 20-39 g \/ dia, 40-59 g \/ dia e &gt; 60 g \/ dia. Uma dose de \u00e1lcool tem de 8 a 13 gramas. Agrupou-se tamb\u00e9m o n\u00famero de dias da semana em que houve consumo de \u00e1lcool nas seguintes categorias: 1-3 dias, 4-6 dias e 7 dias. Avaliou-se tamb\u00e9m o estilo de vida dos entrevistados (tabagismo, atividade f\u00edsica, alimenta\u00e7\u00e3o, n\u00edvel de renda e dados sociodemogr\u00e1ficos). Os autores constataram que os bebedores leves apresentaram menor risco de morte do que os abst\u00eamios; somente nos n\u00edveis altos de consumo houve evid\u00eancia de aumento na mortalidade. A dose de \u00e1lcool protetora encontrada foi de 42-45 gramas de \u00e1lcool\/dia para mulheres. Observou-se tamb\u00e9m que os consumidores de vinho teriam um menor risco de morte ao passo que esse risco era maior para os homens que consumiam cerveja, rela\u00e7\u00e3o que n\u00e3o foi observada entre as mulheres. Para o consumo de destilados n\u00e3o houve associa\u00e7\u00e3o significativa. Os resultados indicaram tamb\u00e9m que as mulheres apresentaram menor risco de morte (por todas as causas) com quatro dias de consumo por semana. Por fim, os autores assinalaram uma limita\u00e7\u00e3o apresentada pela pesquisa (e por todas as pesquisas sobre \u00e1lcool) referente \u00e0 imprecis\u00e3o no auto-relato de consumo dessa subst\u00e2ncia, o que tende a atenuar as associa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Refer\u00eancia(s):<br \/>\n1. National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism (NIAAA). Are Women More Vulnerable to Alcohol&#8217;s Effects?Alcohol Alert No 46, 1999<\/p>\n<p>2. Wilsnack, R.W., Kristjanson, A.F., Wilsnack, S.C. e Crosby, R.D. Are U.S. Women Drinking Less (or More)? Historical and Aging Trends, 1981-2001. Journal ofStudies on Alcohol,67: 341-348, 2006<\/p>\n<p>3. Carlini, E. A; Galdur\u00f3z, J.C.F; Noto, A.R; Nappo, S.A. Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas Psicotr\u00f3picas no Brasil: estudo envolvendo as 107 maiores cidades do pa\u00eds \u2013 2001 \u2013 Centro Brasileiro de Informa\u00e7\u00f5es sobre Drogas Psicotr\u00f3picas (CEBRID) \u2013 Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (UNIFESP) &#8211; 2001<\/p>\n<p>4. Carlini, E. A; Galdur\u00f3z, J.C.F; Noto, A.R; Fonseca, A. Martins; Carlini, C.M; de Oliveira, L.G; Nappo, S.A; de Moura, Y.G; Sanchez, Z.V.D.M. II Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas Psicotr\u00f3picas no Brasil: estudo envolvendo as 108 maiores cidades do pa\u00eds \u2013 2005 &#8211; Centro Brasileiro de Informa\u00e7\u00f5es sobre Drogas Psicotr\u00f3picas (CEBRID) \u2013 Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (UNIFESP) &#8211; 2005<\/p>\n<p>5. Silveira, C.M.; Wang, Y.P.; Andrade, A.G.; Andrade, L.H. &#8211; Heavy Episodic Drinking in the S\u00e3o Paulo Epidemiologic Catchment Area Study in Brazil: Gender and Sociodemographic Correlates. Journal of Studies on Alcohol and Drugs, 68 (1): 18-27, 2007<\/p>\n<p>6. World Health Organization (WHO) &#8211; Alcohol, Gender and Drinking Problems: Perspectives from Low and Middle Income Countries \/ Social consequences of alcohol consumption in Argentina, 2005<\/p>\n<p>7. Slone, L.B.; Norris, F.H.; Rodriguez, F.G.; Rodriguez, J.J.G.; Murphy, Perilla, J.L.<br \/>\nAlcohol use and misuse in urban Mexican men and women: An epidemiologic perspective. Drug and Alcohol Dependence 85, 163-170, 2006<\/p>\n<p>8. Kruisselbrink L.D., Martin K.L., Megeney M, Fowles J.R. e Murphy R.J. Physical and psychomotor functioning of females the morning after consuming low to moderate quantities of beer. Journal of Studies on Alcohol, 67(3):416-20, 2006<\/p>\n<p>9. Burden, M.J.; Jacobson, S.W.; Sokol, R.J.; Jacobson, J.L. Effects of Prenatal Alcohol Exposure on Attention and Working Memory at 7.5 Years of Age. Alcoholism: Clinical And Experimental Research Vol. 29, No. 3 March 2005<\/p>\n<p>10. Helen M. Barr, H.M.; Bookstein, F.L.; O\u2019Malley, K.D.; Connor, P.D.; Huggins, J.E.; Streissguth, A.P. Binge Drinking During Pregnancy as a Predictor of Psychiatric Disorders on the Structured Clinical Interview for DSM-IV in Young Adult Offspring American Journal of Psychiatry, 163:1061\u20131065, 2006<\/p>\n<p>11. Baglietto, L.; English, D.R; Hopper, J.L.; Powels, J.; Giles, G.G. Average volume of alcohol consumed, type of beverage, drinking pattern and the risk of death from all causes. Alcohol &amp; Alcoholism, Vol. 41, No. 6, pp. 664\u2013671, 2006<\/p>\n<p>12. Di Castelnuovo, A.; Costanzo, S.; Bagnardi, V.; Donati, M.B.; Iacoviello, L.; de Gaetano, G. Alcohol Dosing and Total Mortality in Men and Women.Archives on Internal Medicine, (166):2437-2445, 2006<\/p>\n<p>13. Tolstrup, J.; Jensen, M.K.; Tj\u00f8nneland, A.; Overvad, K.; Mukamal, K.; Gr\u00f8nb\u00e6k, M. Prospective study of alcohol drinking patterns and coronary heart disease in women and men. British Medical Journal (BMJ), doi:10.1136\/bmj.38831.503113.7C, 3 de Maio, 2006<\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/www.cisa.org.br\/artigo\/253\/alcool-mulheres.php<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aluna: Luzinete Pereira O uso de \u00e1lcool por mulheres \u00e9 tema de importante repercuss\u00e3o na literatura cient\u00edfica. Isso ocorre devido ao fato de esse tema ser fonte de muita pol\u00eamica e de alarde constante. 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#2 /home/clinicajorgejaber/www/novo/wp-includes/class-wp-hook.php(341): anyfont_insert_free_account_footer('')
#3 /home/clinicajorgejaber/www/novo/wp-includes/class-wp-hook.php(365): WP_Hook-&gt;apply_filters(NULL, Array)
#4 /home/clinicajorgejaber/www/novo/wp-includes/plugin.php(522): WP_Hook-&gt;do_action(Array)
#5 /home/clinicajorgejaber/www/novo/wp-includes/load.php(1308): do_action('shutdown')
#6 [internal function]: shutdown_action_hook()
#7 {main}
  thrown in <b>/home/clinicajorgejaber/www/novo/wp-content/plugins/anyfont/lib/class.admin.php</b> on line <b>375</b><br />
