fonte: O Globo

Como identificar que uma criança está sendo vítima de maus-tratos? Embora não haja um sinal isolado, especialistas afirmam que mudanças significativas de comportamento podem ser indícios de que algo não vai bem. A discussão sobre o tema voltou à tona com o recente julgamento do Caso Henry Borel, cujo padrasto Jairo Souza Santos Junior, o Jairinho, foi condenado a mais de 43 anos de prisão por homicídio duplamente qualificado da criança, além de tortura e coação no curso do processo. Monique Medeiros, a mãe, foi condenada por omissão, mas recebeu perdão judicial e já deixou a cadeia.

O menino morreu em 2021, aos 4 anos, com múltiplas lesões no corpo. Outras ex-companheiras de Jairinho o acusam de praticar agressões contra os filhos delas, durante o relacionamento. Uma delas, Débora Saraiva, cujo filho Enzo, teria sofrido agressões quando criança, contou durante o julgamento que o menino fez um desenho retratando o padrasto o torturando e sorrindo.

O psiquiatra Jorge Jaber alerta para a importância de os pais identificarem situações de violência contra crianças e adolescentes antes que elas se agravem. Mudanças significativas de comportamento e determinados indícios físicos são apontados por especialistas como sinal de alerta para familiares, educadores e profissionais de saúde. Um dos principais desafios é que muitas crianças não conseguem expressar claramente o que estão vivendo.

— A criança nem sempre verbaliza o sofrimento. Muitas vezes, ela comunica isso por meio do comportamento. Por isso, mudanças importantes na forma de agir, no humor ou na interação social devem ser observadas com atenção — afirma o especialista.

Isolamento repentino, tristeza persistente, apatia, irritabilidade e alterações importantes no padrão de sono são sinais que merecem atenção, segundo os especialistas. Jaber explica que essas mudanças não significam necessariamente que a criança esteja sofrendo violência, mas indicam que algo está afetando seu bem-estar emocional.

— Nenhum desses sinais, sozinho, permite concluir que há maus-tratos. O importante é perceber quando existe uma mudança importante em relação ao comportamento habitual daquela criança — explica.

Entre os adolescentes, episódios de automutilação também podem indicar sofrimento psicológico intenso e exigem acompanhamento especializado. Além dos aspectos emocionais, alguns indícios físicos podem chamar atenção. Hematomas frequentes, queimaduras, lesões recorrentes e marcas cuja origem não seja claramente explicada devem ser avaliados com cuidado.

— A repetição de lesões ou explicações inconsistentes para determinados ferimentos merece atenção. Não se trata de tirar conclusões precipitadas, mas de não ignorar sinais que podem indicar uma situação de vulnerabilidade — diz o psiquiatra.

Para os especialistas, a observação não deve se limitar apenas à criança. Eles destacam situações de violência no ambiente familiar, abuso de álcool ou outras drogas por responsáveis, negligência persistente e faltas frequentes à escola como fatores que também podem indicar contextos de risco. A escola, segundo Jaber, costuma desempenhar papel importante na identificação precoce de situações de violência.

— Professores e equipes pedagógicas convivem diariamente com crianças e adolescentes. Muitas vezes são eles os primeiros a perceber mudanças que passam despercebidas em outros ambientes — afirma o especialista.

Saiba o que fazer diante de uma suspeita

Diante de uma suspeita de possíveis situações de risco envolvendo crianças, uma das indicações é buscar a ajuda do Conselho Tutelar, unidades de saúde, serviços de assistência social ou autoridades policiais. O Disque 100 (Disque Direitos Humanos) é um serviço gratuito e sigiloso do Governo Federal que funciona 24 horas por dia para receber, analisar e encaminhar denúncias de violações de direitos humanos (como violência contra crianças, idosos, PCDs, população LGBTQIA+ e trabalho escravo).

— O maior erro é a omissão. Quando existe uma preocupação legítima, ela deve ser comunicada aos órgãos responsáveis. Cabe à rede de proteção avaliar o caso e adotar as medidas necessárias — conclui Jaber.

Na avaliação do especialista, a proteção à infância depende justamente dessa capacidade coletiva de perceber sinais, acolher o sofrimento e agir antes que situações de violência produzam consequências ainda mais graves.

Especialista orienta como identificar sinais de que crianças e adolescentes estão sendo vítimas de maus-tratos

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