A Copa do Mundo de 2026 será a maior já realizada. Mais seleções, mais partidas, mais cidades e mais dias de competição. Pela primeira vez, o torneio acontecerá em três países simultaneamente (Estados Unidos, México e Canadá) e reunirá 48 seleções ao longo de mais de um mês de convivência esportiva.
À primeira vista, parece apenas uma expansão de escala. Mais futebol. Mais consumo. Mais audiência. Mas talvez exista algo ainda mais interessante acontecendo. Em tempos de aceleração permanente, em que tudo precisa caber em poucos segundos, chama atenção que o principal espetáculo esportivo do planeta caminhe na direção oposta: mais tempo. Mais pausa. Mais permanência.
A Copa sempre foi um ritual coletivo. Durante algumas semanas, pessoas que não se conhecem passam a compartilhar horários, emoções, previsões, superstições e conversas improváveis. Mudam rotinas, reorganizam agendas, ligam para familiares, assistem juntas. O futebol produz algo raro na vida adulta: uma experiência emocional sincronizada.
O esporte tem sido, ao longo do tempo, uma espécie de depositário da nossa necessidade de valorização individual e coletiva. Ao torcer por um time específico; no caso da Copa do Mundo, pelo próprio país; tendemos a esperar que a vitória se converta também em afirmação de quem somos. Canções como “A Copa do Mundo é nossa, com brasileiro não há quem possa” ou “Noventa milhões em ação, pra frente Brasil, do meu coração” ajudaram a traduzir esse sentimento: a fantasia de que, se vencermos a competição, seremos também os melhores do mundo.
A edição de 2026 amplia essa esperança. Com 39 dias de competição e 104 partidas, o torneio deixa de ser apenas uma sucessão de jogos eliminatórios e ganha contornos de convivência prolongada. Há espaço para acompanhar seleções que antes quase não apareciam, descobrir histórias, observar estilos diferentes de viver o esporte e permitir que o inesperado permaneça mais tempo em cena.
Esse tempo estendido também muda a relação do torcedor com o próprio espetáculo. Em vez de acompanhar apenas os grandes confrontos ou esperar pelos jogos decisivos, há a possibilidade de entrar aos poucos no torneio, reconhecer personagens, criar simpatias inesperadas e se deixar conduzir por narrativas que não estavam previstas no início da competição. A Copa, nesse formato, se aproxima menos de um evento comprimido entre o início e o final, e se parece mais com uma travessia.
Existe um aspecto psicológico interessante nisso. Em um mundo que nos empurra para bolhas cada vez mais estreitas, eventos coletivos ampliam repertórios. Eles nos lembram que existem outras formas de cantar, sofrer, celebrar e imaginar vitórias. Talvez por isso um dos aspectos mais simbólicos desta Copa seja justamente a ampliação do número de seleções.
Quando mais países entram, entram também mais narrativas. Nações que raramente ocupam o centro das atenções passam a ser vistas por outra lente. E o esporte produz um fenômeno curioso: durante noventa minutos, conseguimos torcer, admirar e nos interessar por povos que, fora do estádio, costumam muitas vezes chegar a nós por meio de notícias sobre crises, disputas e conflitos.
É possível que alguém admire uma seleção sem precisar concordar com seus governos. Que encontre humanidade onde antes havia apenas distância. Esse talvez seja um dos gestos mais importantes e, ao mesmo tempo, mais subestimados do esporte.
Do ponto de vista emocional, também há algo saudável na possibilidade de surpresa. O aumento do número de jogos e seleções tende a abrir espaço para campanhas improváveis, classificações inesperadas e histórias que escapam do roteiro tradicional dos favoritos. Num tempo em que tentamos controlar tudo, o esporte continua lembrando que o resultado nunca está completamente decidido.
Para grandes expectativas, existe sempre a possibilidade de grandes frustrações. Uma boa maneira de lidar com eventuais derrotas é aprender a celebrar a festa do jogo e desenvolver simpatia por outros times, jogadores e histórias. A existência de países sem tradição futebolística consolidada, mas com possibilidade real de avançar na competição, oferece ao torcedor uma alegria alternativa: a de se surpreender, reconhecer o mérito do outro e participar de uma celebração mais ampla.
As grandes competições esportivas carregam uma pedagogia silenciosa sobre frustração, espera e pertencimento. Nem toda torcida será recompensada, nem todo favorito confirmará sua superioridade, nem toda promessa se realizará. Mesmo assim, seguimos acompanhando, torcendo e vibrando. Há algo profundamente humano nessa disposição de investir afeto em um resultado incerto, sabendo que a alegria pode durar poucos minutos e que a derrota também faz parte da experiência compartilhada.
Futebol não é guerra. E, mesmo que fosse, já temos guerras demais. Esta Copa do Mundo apresenta uma possibilidade maior de união entre os povos. Talvez, por alguns dias, a FIFA consiga realizar algo que a ONU nem sempre tem conseguido: aproximar nações, despertar curiosidade mútua e lembrar que o encontro entre diferenças ainda é possível.
A Copa de 2026 será a mais longa da história e pode ser também a mais generosa. Porque, no fim, o que nos prende ao esporte não é apenas quem vence. É a oportunidade de, por alguns dias, experimentar o mundo com menos pressa e um pouco mais de curiosidade (e afeto) pelo outro.
*Jorge Jaber é psiquiatra e grande benfeitor da Academia Nacional de Medicina
